sexta-feira, 20 de março de 2009

Mundo Insano


A gente vê muitas coisas estranhas pelas ruas de São Paulo. Pessoas como o misterioso velho da cadeira de rodas ou o homem de branco, com quem eu pego ônibus todos os dias: ele sempre usa calça branca, camisa branca e sapatos com meias brancas. Até aí tudo bem, talvez seja um profissional da área de saúde. O divertido é observar sua obsessão pelo branco. Não satisfeito em usar traje completo branco, ele usa óculos escuros com armação branca, vários anéis de plástico brancos, brincos brancos (isso chega a ser um trava-língua), mochila branca, celular branco com fones de ouvido na mesma cor e, em dias de chuva, ele carrega um incrível guarda-chuva gigante. Branco. A única e impressionante exceção é o saquinho de lã onde ele guarda o celular: é preto com o símbolo do Santos.

E eu prossigo nesses encontros com pessoas curiosas. Estava à espera de alguém na saída de uma estação de metrô. Havia um morador de rua estrategicamente posicionado. Ele ficava no caminho entre a estação e o ponto de desembarque do ônibus de uma empresa próxima dali, que foi e voltou algumas vezes trazendo funcionários. A cada leva de funcionários que descia, o homem ganhava sanduíches e frutas daqueles que não consumiram seus lanches. Eu observava a cena, contente até por ver o homem ganhando tantas coisas. Ele guardou tudo e abriu um marmitex. De repente, ouvi:

- Moça! Moça!

Era comigo.

- A senhora está servida?

Recusei educadamente, mas não deixei de me impressionar. Era a primeira vez que um mendigo me oferecia comida, e isso me espantou deveras.

Em dois assaltos os ladrões também simpatizaram comigo; no primeiro, após entregar meus passes escolares recém-comprados, como o assaltante me considerou muito bacana por facilitar sua vida, disse-me que eu poderia ficar com dois para voltar para casa e que, se alguém mexesse comigo, iria acertar contas com ele. No segundo, encontraram na minha bolsa apenas um celular e R$ 5,00. Reclamaram da pouca quantia. Eu disse que era o dinheiro do ônibus para a faculdade e do lanche. Levaram só o celular.

Os pedidos de informação também podem surpreender. Gosto de poder ajudar indicando caminhos, mesmo que não tenham abordado a mim, mas a pessoa do meu lado. Às vezes até penso que sou intrometida, porém creio que ajudar nunca é demais. Ontem, num semáforo, percebi ao meu lado um pedido por informação. Fiquei atenta, para ver se era possível colaborar. Não era.

- Moço, por favor! Você sabe me dizer onde fica a Cracolândia?

- Ah, senhora, fica para os lados da Estação da Luz. - (Moço com cara de espanto total).

- E como eu faço para chegar?

Ela deveria perguntar como fazer para não passar por lá, como qualquer pessoa em sã consciência nesta cidade faria. Mas quem disse que aqui há pessoas em sã consciência? Como diz o bom e velho clichê, de louco, todo mundo tem um pouco.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Curta da Dona Maricota II



Dia 10 de março. Minha sobrinha de 5 anos, Dona Maricota, fala comigo ao telefone contando a novidade:

- Tia Karina, meu dente caiu!

- Nossa! E como você está?

- Um pouco nervosa.

- Não precisa ficar assim. Vai jogar o dente no telhado e fazer um pedido? (Coisa da minha época; agora imagine uma casa onde duas crianças jogaram todos os seus dentes de leite no telhado...).

- Não, eu vou mandar para a Fada dos Dentes!

- Fada dos Dentes? Hum... E o que você vai pedir para ela?

- Mil dólares!

E eu que pedia brinquedo quando jogava um dente no telhado... Em tempos de alta do dólar, não há pedido mais adequado! Ilusão eu achar que ia ensinar tudo à sobrinha; vejo que tenho aprendido muito mais do que ensinado!


terça-feira, 3 de março de 2009

Questão de nome



Eu tenho um sobrenome difícil. Eu mesma, durante a alfabetização, tive um pouco de dificuldade para aprendê-lo. Na minha infância, recebi vários apelidos por conta dele: “Tchan, tchan, tchan, tchan”, musicado com a Quinta Sinfonia de Beethoven, como o comercial de lâminas de barbear (antiguinho, eu sei); Dona Armênia, Chambourcy, fora pronúncias com a língua enrolada que eu sabia, referiam-se a mim. Isso sempre me divertiu. No entanto, na vida adulta, tem sido diferente. Qualquer marcação de consulta, cadastro ou solicitação de serviço me obrigam ao inevitável:

- Seu nome?

- Karina.

-Karina de quê?

E lá vai a citação de metade do alfabeto. Acho admirável saber que meu avô atravessou o mundo fugindo de guerras e genocídios, morou e trabalhou em vários países buscando uma vida melhor. Um pessoal da Armênia, aquele pequenino país vizinho da Rússia cuja população é ¼ da de São Paulo (capital, não estado) espalhou-se pela América. Meu avô, sabendo que primos moravam na Argentina, resolveu ir para lá. Veio da Europa de navio, com escala no Rio de Janeiro. Mas era carnaval, e sabe como é que é: rapaz jovem, solteiro, à vontade no meio da folia... Tão à vontade que meu avô perdeu o navio. E ficou por aqui, sob o sol tropical. Reza a lenda familiar algo que deixa a história ainda melhor: o navio afundou a caminho da Argentina.

Graças ao carnaval, nasci brasileira (e no carnaval). Brasileira com sobrenome asiático. Um pouquinho modificado porque dizem que, na hora do registro, o escrevente se atrapalhou. Não foi só ele. Esses dias passei por duas ótimas:

- Seu nome?

- Karina.

-Karina de quê?

- Vou soletrar: C-H-A-M...

- Moça, eu pedi seu sobrenome...

Realmente não sei o que a atendente imaginou que eu estivesse fazendo. Talvez pensou que eu estivesse entoando um mantra.

A outra foi melhor. Depois de ter soletrado umas cinco vezes e o atendente não ter conseguido localizar meu cadastro, tentei ajudar. Pedi:

- Vamos ver se meu sobrenome foi anotado corretamente: será que você poderia soletrar o que anotou?

- Claro! Lá vai: C de casa, H de homem, A de amor, M de Maria, K de caqui...

- Hein?

- K de caqui!

- Meu amigo, caqui é com c!

Quem sabe com o novo acordo ortográfico (não o de agora, talvez de 2050) caqui seja escrito com K. Até lá eu continuo com a minha ladainha de soletração – não posso reclamar muito porque, cá entre nós, eu também tropeço de vez em quando...