quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Dia de Todos os Santos


Domingo, quase hora do almoço. Toca a campanhia do apartamento. E iniciou-se a cena que eu achei que só acontecesse em filmes americanos:

- Doce ou travessura?

Caramba, nem era mais dia 31 de outubro, que fora na véspera. Eu estava de roupão, descabelada, no meu processo de acordar num domingo. Isso pode levar horas.

- Bem, eu vou ver se tenho algum doce...

As meninas ficaram na porta, ansiosas. Perceberam minha busca pela cozinha: eu abria geladeira, armários, procurava e nada. Não cozinho, e doces duram pouco em minha casa. Tentei:

- Olha só, eu tenho esse pacote de bolacha cream cracker...

Elas me fitaram com espanto.

- Vocês podem passar geléia, fica uma delícia!

- Não tem uma balinha?

- Não, só a bolacha mesmo, mas podem levar!

Elas não acreditavam:

- Ah, tá bom, moça, não precisa então...

Não era possível recusarem oferta tão espetacular:

- Vocês não querem mesmo???

- Não, obrigada, fica pra outra vez...

E estava feita a travessura. Recusaram meu pacote de cream cracker! Num mundo tão globalizado e moderno, onde se comemora Halloween no Brasil e se pede doces em primeiro de novembro, por que não levar uma bolacha salgada? Ora, ora...


domingo, 26 de julho de 2009

Continho de verão



Passeando em Ilhabela com a família. Resolvemos tomar sorvete no centro da cidade. Eu dirigia. Verão, muita gente, difícil achar uma vaga para estacionar. Eis que surge uma, onde cabia um carro certinho. Pensei duas vezes. Eu sei fazer baliza sim, mas exatamente como aprendi na auto-escola: com aqueles cabos de vassoura de marcação, não entre carros. Afinal, a gente não aprende desse jeito ao tirar carta. Como já rodáramos muito, resolvi tentar.

Baliza não é baliza sem platéia. A vaga era em frente a um ponto de ônibus cheio de gente, claro. Primeira tentativa. Nada.

Segunda tentativa. Nada.

Terceira tentativa. Umas cem calorias a menos. Nada.

Mãe, irmã e sobrinha no carro dando palpites. Até que minha mãe, que não dirige, resolveu ajudar, oferecendo-se para descer e orientar a manobra.

- Tá longe ainda, mãe?

- Tá chegando perto... mais um pouquinho... para!

Ia pra frente:

- Para, para, tá encostando...

Pra trás:

- Paaaara, vai bater!

Não era possível. Por mais que eu não tenha noção de espaço, eu sabia que dava para o carro entrar. Desci, sob os olhares sorridentes do pessoal do ponto.

- Mãe, tem meio metro pra eu encostar no carro de trás!!!

- Eu só estou te avisando com antecedência para que você não bata...

Mãe prevenida ao quadrado. Combinei com ela que era para me avisar só se encostasse. Depois de mais umas duzentas calorias perdidas e a tonificação dos músculos dos braços graças à ausência de direção hidráulica, consegui. As pessoas no ponto quase me aplaudiram.

Descemos; coloquei trava, alarme, carranca... E vi uma senhora se aproximar de nós. Ela calmamente pegou uma chave da bolsa, abriu o carro que estava na frente do meu, sentou-se, ligou o motor e foi embora. Não tive coragem de olhar para o pessoal do ponto de ônibus...

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Dia dos Namorados



Ele comprou as alianças. Escolheu um par de ouro branco. Sabia que era o que ela gostava. Amava-a como nunca, um amor que desabrochou nos últimos dias, de um jeito que ele jamais provara. Feliz da vida, embrulhou o presente com cuidado. E nessa hora teve a idéia. Iria assustá-la. Antes do grande pedido, um bom susto para que a surpresa ficasse ainda melhor. Terminaria tudo para depois revelar a brincadeira. Seria perfeito.

Esperou pela noite. Iriam se ver no local do primeiro encontro. Arrumou-se, guardou as alianças no bolso do casaco e saiu, sem conseguir disfarçar o sorriso.

Chegou ao bar, escolheu a mesma mesa da primeira vez. Minutos depois ela entrou, linda num vestido azul, talvez um pouco leve para o friozinho de junho. Beijou-a e esperou que se sentasse. Conversaram sobre acontecimentos recentes. Ele pediu um vinho, deixou-a tomar um pouco. Resolveu começar:

- Sabe, eu tenho um assunto meio desagradável para tratar...

- Sem rodeios, vá lá!

- Pois bem. Há dias venho querendo lhe dizer. Não consigo mais sentir a mesma coisa por você. Algo em mim mudou, não sou mais o mesmo, fico estranho ao seu lado.

- Sério?

- Sim. Passei a ver tudo com outros olhos. O nosso relacionamento. Não é aquilo que eu esperava, minhas expectativas eram outras. O que você acha?

- Eu me sinto aliviada. Não sabia como falar contigo, mas acho que você pode ser um bom amigo, não um namorado. Eu queria terminar, porém não sabia como fazê-lo sem te magoar...

Ele emudeceu. Podia ouvir o próprio coração.

- Ah... Bem... É... É isso... Melhor preservarmos uma bela amizade... A conta, garçom, por favor!

Despediu-se dela com um beijo no rosto. Não conseguia colocar a mão no bolso onde estavam as alianças, como se elas fossem escorpiões.

Andou a noite toda. Na manhã seguinte, odiando o mundo, vendeu os anéis a um “Compro Ouro” por um terço do que pagou. Gastou o dinheiro numa boate, com uma vodka barata e uma moça de nome Ábata, cujo passado ele preferiu não saber. Casou-se oito anos depois, mais por teimosia do que por amor.


sexta-feira, 19 de junho de 2009

Caminhando e cantando e seguindo a canção...



Caminhar é pular etapas passando por cada uma. É deixar para trás e encontrar logo mais à frente. É suspender o tempo por um tempo e, de repente, nossa, quanto tempo passou!

Caminhar é pular buracos, tropeçar em buracos. Virar o pé num piso bom. Pisar na poça sem querer ou tomar chuva de propósito. Fugir do sol mesmo sabendo que não há na Terra lugar para isso.

Caminhar é decidir fazer o percurso todo a pé e desistir no finzinho do caminho. É pensar que se exorcisa o mal como cansaço das pernas e as bolhas dos pés. É sair para tomar ar e sentir mais calor. É aceitar o suor e a experiência. É aceitar também um mundo esburacado e cheio de gente estranha. Mas não, eu não me aceito enquanto caminho. Eu me rejeito, rejeito pela louca ideia de sentir com os pés e pele o perigo das ruas. E o perigo da minha própria companhia, então? Caminhar é a vã tentativa de livrar-me de mim mesma. Como se fosse possível arrancar a própria sombra, dobrá-la e guardá-la no bolso.

20.01.2007

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Eu voltei, agora pra ficar...



Finalmente, voltei!

Limpando a poeira, tirando as teias de aranha: é hora de voltar à rotina de histórias insólitas deste blog!

Depois de atividades, mudanças, falta de horários, falta de internet, gripe forte, entre outras adversidades, acho que agora consigo reestabelecer a periodicidade das publicações.

Eu e a Janis andamos aparecendo por aí; eu com o blog, ela e eu numa entrevista bacaninha e um tiquinho exagerada, porque eu tenho um mínimo de noção e falei meio diferente do que publicaram. Mas ficou legal, como vocês podem conferir:

http://www.metodista.br/rronline/cultura/relacao-entre-homem-e-animal-traz-beneficios/

O áudio sobre o blog, que foi ao ar no programa Você é Curioso, da Rádio Bandeirantes, vou ajeitar pra colocar aqui depois.

De resto, pela primeira vez na história, dormi nos 10 primeiros minutos de um capítulo de Lost. Ou é o cansaço, ou é a idade.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Mundo Insano


A gente vê muitas coisas estranhas pelas ruas de São Paulo. Pessoas como o misterioso velho da cadeira de rodas ou o homem de branco, com quem eu pego ônibus todos os dias: ele sempre usa calça branca, camisa branca e sapatos com meias brancas. Até aí tudo bem, talvez seja um profissional da área de saúde. O divertido é observar sua obsessão pelo branco. Não satisfeito em usar traje completo branco, ele usa óculos escuros com armação branca, vários anéis de plástico brancos, brincos brancos (isso chega a ser um trava-língua), mochila branca, celular branco com fones de ouvido na mesma cor e, em dias de chuva, ele carrega um incrível guarda-chuva gigante. Branco. A única e impressionante exceção é o saquinho de lã onde ele guarda o celular: é preto com o símbolo do Santos.

E eu prossigo nesses encontros com pessoas curiosas. Estava à espera de alguém na saída de uma estação de metrô. Havia um morador de rua estrategicamente posicionado. Ele ficava no caminho entre a estação e o ponto de desembarque do ônibus de uma empresa próxima dali, que foi e voltou algumas vezes trazendo funcionários. A cada leva de funcionários que descia, o homem ganhava sanduíches e frutas daqueles que não consumiram seus lanches. Eu observava a cena, contente até por ver o homem ganhando tantas coisas. Ele guardou tudo e abriu um marmitex. De repente, ouvi:

- Moça! Moça!

Era comigo.

- A senhora está servida?

Recusei educadamente, mas não deixei de me impressionar. Era a primeira vez que um mendigo me oferecia comida, e isso me espantou deveras.

Em dois assaltos os ladrões também simpatizaram comigo; no primeiro, após entregar meus passes escolares recém-comprados, como o assaltante me considerou muito bacana por facilitar sua vida, disse-me que eu poderia ficar com dois para voltar para casa e que, se alguém mexesse comigo, iria acertar contas com ele. No segundo, encontraram na minha bolsa apenas um celular e R$ 5,00. Reclamaram da pouca quantia. Eu disse que era o dinheiro do ônibus para a faculdade e do lanche. Levaram só o celular.

Os pedidos de informação também podem surpreender. Gosto de poder ajudar indicando caminhos, mesmo que não tenham abordado a mim, mas a pessoa do meu lado. Às vezes até penso que sou intrometida, porém creio que ajudar nunca é demais. Ontem, num semáforo, percebi ao meu lado um pedido por informação. Fiquei atenta, para ver se era possível colaborar. Não era.

- Moço, por favor! Você sabe me dizer onde fica a Cracolândia?

- Ah, senhora, fica para os lados da Estação da Luz. - (Moço com cara de espanto total).

- E como eu faço para chegar?

Ela deveria perguntar como fazer para não passar por lá, como qualquer pessoa em sã consciência nesta cidade faria. Mas quem disse que aqui há pessoas em sã consciência? Como diz o bom e velho clichê, de louco, todo mundo tem um pouco.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Curta da Dona Maricota II



Dia 10 de março. Minha sobrinha de 5 anos, Dona Maricota, fala comigo ao telefone contando a novidade:

- Tia Karina, meu dente caiu!

- Nossa! E como você está?

- Um pouco nervosa.

- Não precisa ficar assim. Vai jogar o dente no telhado e fazer um pedido? (Coisa da minha época; agora imagine uma casa onde duas crianças jogaram todos os seus dentes de leite no telhado...).

- Não, eu vou mandar para a Fada dos Dentes!

- Fada dos Dentes? Hum... E o que você vai pedir para ela?

- Mil dólares!

E eu que pedia brinquedo quando jogava um dente no telhado... Em tempos de alta do dólar, não há pedido mais adequado! Ilusão eu achar que ia ensinar tudo à sobrinha; vejo que tenho aprendido muito mais do que ensinado!


terça-feira, 3 de março de 2009

Questão de nome



Eu tenho um sobrenome difícil. Eu mesma, durante a alfabetização, tive um pouco de dificuldade para aprendê-lo. Na minha infância, recebi vários apelidos por conta dele: “Tchan, tchan, tchan, tchan”, musicado com a Quinta Sinfonia de Beethoven, como o comercial de lâminas de barbear (antiguinho, eu sei); Dona Armênia, Chambourcy, fora pronúncias com a língua enrolada que eu sabia, referiam-se a mim. Isso sempre me divertiu. No entanto, na vida adulta, tem sido diferente. Qualquer marcação de consulta, cadastro ou solicitação de serviço me obrigam ao inevitável:

- Seu nome?

- Karina.

-Karina de quê?

E lá vai a citação de metade do alfabeto. Acho admirável saber que meu avô atravessou o mundo fugindo de guerras e genocídios, morou e trabalhou em vários países buscando uma vida melhor. Um pessoal da Armênia, aquele pequenino país vizinho da Rússia cuja população é ¼ da de São Paulo (capital, não estado) espalhou-se pela América. Meu avô, sabendo que primos moravam na Argentina, resolveu ir para lá. Veio da Europa de navio, com escala no Rio de Janeiro. Mas era carnaval, e sabe como é que é: rapaz jovem, solteiro, à vontade no meio da folia... Tão à vontade que meu avô perdeu o navio. E ficou por aqui, sob o sol tropical. Reza a lenda familiar algo que deixa a história ainda melhor: o navio afundou a caminho da Argentina.

Graças ao carnaval, nasci brasileira (e no carnaval). Brasileira com sobrenome asiático. Um pouquinho modificado porque dizem que, na hora do registro, o escrevente se atrapalhou. Não foi só ele. Esses dias passei por duas ótimas:

- Seu nome?

- Karina.

-Karina de quê?

- Vou soletrar: C-H-A-M...

- Moça, eu pedi seu sobrenome...

Realmente não sei o que a atendente imaginou que eu estivesse fazendo. Talvez pensou que eu estivesse entoando um mantra.

A outra foi melhor. Depois de ter soletrado umas cinco vezes e o atendente não ter conseguido localizar meu cadastro, tentei ajudar. Pedi:

- Vamos ver se meu sobrenome foi anotado corretamente: será que você poderia soletrar o que anotou?

- Claro! Lá vai: C de casa, H de homem, A de amor, M de Maria, K de caqui...

- Hein?

- K de caqui!

- Meu amigo, caqui é com c!

Quem sabe com o novo acordo ortográfico (não o de agora, talvez de 2050) caqui seja escrito com K. Até lá eu continuo com a minha ladainha de soletração – não posso reclamar muito porque, cá entre nós, eu também tropeço de vez em quando...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

De repente, 30



De repente mesmo. Ainda outro dia eu tinha 20 e pouco. Ainda outro dia eu era criança! E agora aqui estou, às vésperas dos 30. Tenho relutado, concordo: é impactante. Tanto que, como disse minha amiga, quando no sábado der meia-noite e chegar o meu aniversário, atrasarei o relógio em uma hora para ainda ter 29. É que acaba o horário de verão em São Paulo.

É muito estranho. Estranho comprovar que a vida realmente está passando. Pelo menos, assumi o controle de novo e, espero, agora é pra valer. Organização, disciplina, academia para reduzir os danos que o “pode tudo” dos 20 me causou. Você percebe a maturidade não por causa das contas que paga, das responsabilidades assumidas. Você percebe em pequenos hábitos alterados que pregam sustos.

Exemplo: odeio acordar cedo. Odeio, não consigo, sofro. Sempre fui adepta do horário alternativo no trabalho: entrava mais tarde, saía mais tarde. Acordava às 9h30. Então, um belo dia, cansei. Mudei de horário; hoje entro às 9h, acordo bem mais cedo. Achei que tivesse feito isso para fazer mais coisas ao sair do trabalho. Descobri que fiz porque estou ficando mais velha.

Outro exemplo: sempre achei a adolescência a parte mais interessante da vida. Ainda acho. Só não acho mais tão fácil ficar 10 minutos ao lado de um grupo de adolescentes. E o pior: se tiverem menos de 15 anos, me chamarão de tia.

Às vezes, algumas roupas que eu usava ficavam muito legais pela sobriedade, pois contrastavam com a minha idade. Hoje, essas roupas não só me denunciam como ainda me fazem parecer mais velha.

Isso sem contar que eu ainda gosto de comprar CD’s; esse negócio de tudo virtual não tem tanta graça para mim. Resquícios de quem ganhava discos de vinil nos aniversários dos anos 80.

Pois bem, os 30 chegaram. E podem vir os 40, 50, 60... Quando eu era criança, me imaginava aos trinta num mundo futurista, às portas de 2010, fazendo mil coisas, sendo alguém importante. Até que o mundo é meio futurista, faço mesmo mil coisas, mas não sou ninguém importante. Quero dizer, se 4 ou 5 pessoas me consideram importante, já é uma grande conquista nessa vida. Isso contando a Janis, que não é bem pessoa, mas tenho certeza que para ela eu sou a fantástica criatura que lhe serve sua ração e atira a bolinha.

Mesmo que fossem 87 anos: adoro aniversários. E enquanto escrevi e mais um pouquinho de vida passou, um simpático tatu-bolinha percorreu toda a sala. Você se pergunta o que tem a ver? Deve ser a idade que já está me fazendo misturar as coisas.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Visitas, só com o corretor


Mas não fomos com o corretor. Tratar direto com a proprietária. Talvez fosse até melhor. Tocamos o interfone:

- Boa tarde, eu vim visitar o apartamento à venda, marquei com a senhora hoje...

- Comigo ninguém marcou não.

- Marquei sim, conversamos ainda há pouco, a senhora até me disse para vir antes das seis.

- Eu não me lembro não, falei mesmo com você hoje? Ah, eu me lembrei, falei sim! É que veio outra pessoa, pensei que você fosse a outra pessoa que já tinha vindo. Espere um pouco que vou descer.

Esperei. Apareceu uma mulher muito branca, de cabelos muito amarelos enrolados em volta de toda a cabeça, com vários grampos.

- Oi, vamos subir. Esse prédio é muito bom, vale a pena morar aqui, perto da delegacia, o edifício foi pintado por fora e em breve será pintado por dentro, a síndica está organizando isso.

As palavras dela contrastavam com o que se via.

- Eu moro aqui em outro apartamento, esse à venda estava alugado. Precisa de uma reforminha, mas é coisa simples.

Ela abre a porta do apartamento. O primeiríssimo cômodo que se destaca com uma enorme entrada, à direita, é o banheiro. Ou seria a lavanderia? Olhando melhor, era os dois: um banheiro com vaso, chuveiro e um tanque. Com varalzinho do lado de fora da janela.

- Aqui foi feita uma reforma há uns 20 anos, aí juntaram o banheiro com a lavanderia, mas é muito bom, vocês podem ver como bate sol o tempo todo e a máquina de lavar pode ser colocada ao lado do chuveiro.

Fomos entrando na sala.

- Vejam que sala grande; o único problema é que eu não conseguia acabar com as pulgas, passei veneno três vezes e essas pulgas não iam embora, mas agora parece que sumiram, elas ficavam no taco, sabe...

E um exército derrotado de baratas jazia no chão junto às invisíveis pulgas mortas - ou não. Deu-me uma vontade louca e quase incontrolável de levantar as barras da calça enquanto desviava dos corpos.

- Aqui é a cozinha, tem uns azulejinhos quebrados, mas eu conheço uma loja de azulejos antigos, já separei um pedaço e vou lá comprar o que falta, como vocês podem ver o azulejo é muito bom, a parte hidráulica foi reformada na última vez que mexeram, porque era tudo antigo, mas agora já não tem mais problema, mexer com hidráulica é caro e isso já foi feito.

Uma cozinha de azulejos cor-de-rosa, muito rosa, inteirinha rosa. Velha de tudo, destruída. O mais fácil seria arrancar tudo e revestir de novo.

- Você pode pôr uma mesa nessa cozinha, ou na sala, olha que sala grande, dois ambientes, a cozinha também é grande, você não vê mais isso por aí.

Continuávamos a ver por educação.

- Olhem só esses quartos: tem armário embutido, a porta está um pouquinho torta, mas já combinei com o pedreiro (?), ele vai arrumar isso, já providenciei tudo, assim que vender o apartamento(??) vou gastar uns quatro mil com a reforma, pouca coisa, é só dar um jeitinho no que o inquilino estragou, o resto está muito bom.

O armário dava medo. Um monstro poderia ter se criado lá.

Tudo visto, corremos para a saída.

- Vejam só, aqui tem 75 metros quadrados, é um lugar muito bom, pertinho da delegacia, o apartamento é ótimo, fizeram uma reforma há vinte anos, agora é só pintar e consertar umas coisinhas que o inquilino estragou, o banheiro, por exemplo, acho que quebravam coco aqui dentro, por isso o piso ficou assim...

Desfazendo-se.

- A senhora quer 110 mil pelo apartamento?

- Isso mesmo, abaixei o preço por causa da reforma.

- Então tá, qualquer coisa eu volto a ligar, obrigada...

- Eu não lembrava de você, depois lembrei, falei para vir antes das seis porque tenho massagista, estou com dores no joelho já há alguns dias, tenho osteoporose, estou fazendo tratamento e o médico receitou massagens...

- Ahhh...

- Sabe, com cada idade tem que se tomar alguma coisa, é bom tomar muito leite de soja a partir dos trinta para não sentir calor na menopausa, a soja evita o calor, mas ninguém ensina essas coisas na escola, deveriam ensinar que é bom tomar iorgute (sic), leite de soja, ensinar a tratar da saúde, e não essas coisas inúteis que a gente não usa para nada...

- Obrigada, viu...

- Eu vou descer também, idade é fogo, vocês verão quando chegar a hora.

Finalmente, o elevador!

- Liguem-me se quiserem comprar...

- Tá.

- Não adianta, eu falo para todo mundo: apartamento de luxo é caro mesmo.

Depois dessa sábia consideração, ficamos a discutir: ela achava que o apartamento dela era de luxo ou que estava uma pechincha? Fosse o que fosse, não era exatamente de massagista que ela precisava...