sexta-feira, 27 de junho de 2008

Alpaca


Alpaca. Lembrei-me da alpaca. É parente da lhama; as duas, por suas vez, são espécies domesticadas do guanaco, um mamífero selvagem da família dos camelídios. Todos se parecem, mas eu acho a lhama mais fofinha, mais gracinha, pelo menos as que conheci. Aliás, a foto que ilustra esse blog é de uma lhama que, como uma perfeita modelo, posou magnificamente para mim. Só que a alpaca, na minha opinião, é como uma lhama que não quis ser patricinha e ficou, digamos, largada, rebelde. Ambas têm mais ou menos um metro de altura, pernas curtas, pescoço longo, muito pêlo que costuma virar belos casacos de lã no Peru e adjacências; podem ser marrons, beges ou brancas.


Voltemos, porém, à alpaca. Estive por duas vezes com algumas (as mesmas nas duas vezes) em Itu, numa fazendinha cheia de bichos e guloseimas. Ao adentrar essa fazenda, a pessoa é recepcionada por pavões belíssimos e interesseiros, que abrem a cauda por comida, seja ração ou o biscoito mesmo. O terreno fica numa serra; na parte mais alta, a observar tudo, ficam as alpacas. Quando se chega perto de seu cercado baixo, elas descem correndo para encarar o atrevido. E vou falar: não há nada mais estranho e engraçado do que uma alpaca descendo morro abaixo em alta velocidade (alta velocidade na opinião delas). Extremamente desengonçadas, fazem o pescoço comprido ondular, balançando a cabeça exageradamente de um lado para outro; as pernas curtas promovem um trote cai-não-cai, gerando uma certa ansiedade no observador. Lembram o Garibaldo da Vila Sésamo. E sua chegada é no maior clima “vai encarar?”.


E elas encaram. Olham nos olhos mascando e babando. E é difícil não encará-las. Mais do que se sentir desafiado, não se pode deixar de encará-las porque são estranhas demais. Têm o maxilar inferior avantajado, deixando os dentes de baixo à mostra; pêlos que, se não forem constantemente tosados, transformam-se em tufos de estopa e um olhar insano. Para completar, há na fazendinha um funcionário de plantão por perto para nos dar o sinistro aviso:


- Não fiquem encarando a alpaca, não a olhem nos olhos; ela pode não gostar e cuspir na cara.


Uau! Visual bad boy completo: cospem na cara e tudo! Que autenticidade! É claro que não paguei para ver, mas simpatizei na hora com esse comportamento peculiar. E passei a respeitar e a admirar a alpaca, com seu andar desengonçado, seu jeito “tá olhando o quê?”, sem fofura e sem frescura. Como diria aquela música dos Titãs... deixa pra lá...

sábado, 17 de maio de 2008

O misterioso velho da cadeira de rodas



Era o ano de 2002. Eu estava na estação Clínicas do metrô indo sei lá para onde, devido a esse meu espírito andarilho que me faz percorrer a cidade toda. Assim que o trem chegou, entrei no meu vagão preferido (sim, eu tenho vagão preferido) pela porta que mais gosto (sim, eu tenho porta de que mais gosto) e como estava vazio, cismei de sentar no banco cinza, aquele reservado a idosos, gestantes, etc. Mais uma daquelas que faço sem pensar. Ou então, num gesto altruísta, eu me sentei pensando em ceder gentilmente o lugar assim que entrasse o primeiro velhinho desamparado. Pois na mesma estação, só que por outra porta, entrou aquele senhor que parecia beirar os setenta anos, barrigudo, calvo e de um nariz enorme, desses que parecem crescer a vida toda. O inusitado era o que ele levava: uma cadeira de rodas vazia. Talvez não tão inusitado, foi o que me ocorreu; estávamos perto do hospital.

E ele veio em minha direção. Empurrava a cadeira de rodas com cara de bravo. Ao se postar à minha frente, começou a resmungar e bater a cadeira nas minhas pernas. A princípio, ignorei; tantos lugares vagos, não era possível que ele quisesse se sentar ali. Era. Ele insistiu resmungando e seguindo uma das minhas diretrizes, que pede para que não se contrarie pessoas estranhas (não no sentido de desconhecidas) eu troquei de lugar sem falar nada. Segui viagem observando aquele gentil senhor explorar habilmente as profundezas do seu nariz.

Como fato estranho a gente espalha, ao me lembrar disso certo tempo depois, contei a um amigo o que se passara. Nesse mesmo dia, volto para casa e, misteriosamente, avisto o mesmo senhor narigudo, mal-humorado, empurrando uma cadeira de rodas vazia, atravessando a rua da minha casa! (Aqui vai até um tom de voz à Gil Gomes). Parecia que ao contar a história, eu invocara magicamente o estranho velho. O detalhe é que eu morava no Butantã, que nem era perto das Clínicas e onde nem havia metrô. Dessa vez não fizemos contato; tratei de entrar em casa sem nem olhar muito pra ele.

Comigo, no entanto, bizarrice pouca é bobagem. Ano 2007. Dada a sua idade avançada, o velhinho, sem maldade alguma, poderia ser considerado morto. Eu estava nas imediações da estação Ana Rosa do metrô, a caminho de um ponto de ônibus para ir embora. E no ponto, havia certo tumulto, as pessoas aborrecidas afastando-se de alguém que as incomodava. Quando finalmente posso ver quem era a causa do tumulto, espantosamente vejo o velho – e não estava só. Consigo levava a inseparável cadeira de rodas vazia. Pretendia pegar um ônibus, o que lhe seria custoso com a bagagem que trazia, mas não pude ver como fez, já que meu coletivo passou antes – talvez até para minha sorte. Por enquanto não o tenho visto mais, e, se alguém vir esse ser pela cidade, cuidado: ele pode pedir seu lugar e segui-lo para sempre.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Nota sobre o gato II

Notícias atualíssimas sobre o gato que caiu do quinto andar! Soube hoje que, mais do que estar vivo e passar bem, o bichano está completamente recuperado, tendo eu sido convidada a vê-lo qualquer hora. Como preciso ver para crer, pretendo mesmo visitá-lo, porque não é possível que o gato esteja de novo feliz e saltitante depois do estado em que o vi. Definitivamente, além de acreditar em extraterrestres, agora acredito em sete vidas de gatos. Para completar minhas experiências existenciais, preciso encontrar um gnomo no jardim.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

As mais belas músicas já compostas

Resolvi criar uma lista das músicas que considero as mais belas. Como belas, entenda-se tocantes, passionais, aquelas que são impossíveis de se ouvir sem nada sentir. Para mim, é óbvio. Se alguém discordar, debatamos nos comentários. A lista está em ordem alfabética por banda (outra obviedade) e faltam algumas coisas que esqueci no momento.
  • Beatles - "Because"
    Beatles -"Across the Universe"
    Dead Can Dance - "The Carnival is Over"
    Echo & The Bunnymen - "The Killing Moon"
    Guns and Roses - "Patience"
    Janis Joplin - "Ball and Chain"
    Janis Joplin - "Me and Bob McGee"
    Janis Joplin - "Summertime"
    Johnny Rivers - "You´ve lost that loving feeling"
    Led Zeppelin - "Since I´ve been loving you"
    Legião Urbana - "Tempo Perdido"
    Paul Simon - "Bridge Over Trouble Water"
    Pearl Jam - "Oceans"
    Pink Floyd - "The Great Gig in the Sky"
    Radiohead - "Creep"
    Radiohead - "Exit Music (for a film)"
    Radiohead - "Fake Plastic trees"
    Sisters of Mercy - "More"
    Smashing Pumpkins - "Disarm"
    Smashing Pumpkins - "Muzzle"
    Soundgarden - "Blow Up The Outside World"
    Soundgarden - "The day I tried to live"
    The Mamas and The Papas - "Dedicated to the one I love"
    The Mamas and The Papas - "Monday Monday"
    The Nixons - "Sister"
    The Smiths - "Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me"
    U2 - "Bad"
    U2 - "One"
    U2 - "Where the streets have no name"

Metrô


A história a seguir é de 18.7.1999, o ano em que comprei meu primeiro celular - aquele Baby tijolão, para o qual criaram aquela propaganda do bebê falante. Eu tinha vergonha de falar em locais públicos e para atendê-lo, sempre me escondia nas cabines de orelhão. Digressões à parte, o texto nem é sobre celulares e lá vai:


"Último vagão, entre a penúltima e a última estação. Ela, quase atrasada para o trabalho, quase sozinha naquele vagão do metrô. Havia apenas mais um homem, no banco lateralmente oposto ao dela.

Era inverno, porém este nunca chegava aos túneis do metrô. Estava um calor agradável e a velocidade do trem proporcionava a reconfortante certeza da pontualidade. Ela mudara o trajeto para tentar o incrível feito de ser pontual. Com as ruas intransitáveis àquela hora, preferiu o rápido meio de transporte. Apenas um minuto entre uma estação e outra. E em mais meio minuto ela desceria...

Com a proximidade da estação, o trem foi diminuindo a velocidade. E parou, provavelmente à espera de que outro trem partisse, permitindo-o estacionar com segurança.

Ela detestava quando isso acontecia. a sensação era sempre ruim, mesmo sabendo que em poucos segundos voltariam a andar. Lembrou-se do dia de sol lá fora ao ver o concreto escuro através da janela. Teve tempo de relembrar o dia anterior e o comecinho daquela manhã, até que olhou o relógio. O trem estava demorando... O quase atrasada em pouco tempo se consolidaria um atraso real. Olhou para o homem ao lado.

Ele carregava uma pequena mochila. Vestia jeans e camisa. Tinha um cavanhaque e não era feio. Ele percebeu que estava sendo observado e olhou para ela, que virou o rosto e neste momento deu-se conta de que eram apenas os dois no vagão. Em breve, porém , o trem partiria, mais alguns segundos e ela estaria subindo correndo pelas escadas rolantes...

Não. Os segundos já se transformavam em minutos. Ela começou a se impacientar. Mais ainda quando o homem, olhando ao redor, também deu-se conta de que eram apenas os dois ali. E olhou para ela quase sorrindo.

Ela não sabia se comentava com ele sobre a demora. Diante da impossibilidade de fuga naquele vagão sem portas para os demais, ela ficou quieta. Mirou o túnel negro e sentiu um início de medo.

Que bobagem, para que medo, se logo partiriam? "Em caso de emergência, quebre o vidro e puxe"... Não, não haveria emergência. Sim, o homem se mexeu. E ajeitou-se no banco de modo que pudesse olhá-la melhor.

Ela segurou com mais força a bolsa e pensou no dinheiro que tinha. Não deixaria que levassem os documentos, era tão trabalhoso tirá-los! E cartas, cartões, fotos, tudo aquilo que concedia à sua carteira uma curta descrição da sua vida...

Quase dez minutos e nada. Começou a sentir calor. Atrasada, mas que droga! O homem tossiu, fazendo com que ela quase pulasse no banco. Imagine, o metrô é um seguro meio de transporte, posso sair dele quebrando o vidro de emergência e acionando o mecanismo de abertura das portas, eu gritarei e então...

Clic! As luzes se apagaram. Escuridão total. Ela se encolheu no assento, tremendo. E agora, onde estará o botão de emergência? E se ao acioná-lo, o trem começar a se movimentar? O homem tossiu mais forte. Ela podia jurar que ele havia se aproximado. Pensou em rezar, no entanto lembrou-se de que não acreditava em milagres. O guarda-chuva! Idéia brilhante logo apagada. Ele poderia ter um revólver.

As lâmpadas emergenciais acenderam-se. Iluminavam quase nada, mas pelo menos as trevas não eram totais. O homem havia mudado de banco, porém continuava na mesma fileira. Só que agora, de frente para ela.

Então o trem, vagarosamente, começou a se movimentar. Ela, em pânico, conseguiu respirar. Teve a impressão de que o homem sorrira.

A estação estava às escuras. Deve ter sido uma queda de energia no bairro, pensou ela. Todavia, mal pode pensar outra coisa: o trem passou direto pela última estação e parou bem adiante, noutro corredor sem luz.

Agora já era demais. O homem levantou-se e tentou espiar pela janela. Ela, ofegante, prestava atenção a cada movimento dele, que se voltou e a encarou. É, agora não há mais saída... Sua seriedade assustou-a ainda mais. Ela tentava disfarçar o nervosismo; era impossível. Foi quando ele fez um gesto de quem diria algo e:

- Senhores passageiros, desculpem-nos o transtorno. Assim que se normalizar o fornecimento de energia elétrica, os senhores poderão desembarcar.

A voz metálica do auto-falante. No mínimo, deveria haver outro condutor no último vagão, que movimentaria o trem no sentido contrário, de volta à plataforma. Se precisasse, seria só correr e bater na cabine fechada. Enquanto isso, à meia-luz, o homem tentava ver as horas. Olhou mais uma vez para ela e as luzes foram totalmente acesas. O trem pôs-se de volta a caminho da estação.

Ela não o esperou parar; levantou-se e dirigiu-se para a porta. Ele havia sentado. Quando as portas se abriram, ela correu e voou pelas escadas rolantes. Havia perdido meia hora.

Contou por cima a história do metrô aos colegas. Ao sair do trabalho, já refeita, resolveu passar em uma livraria para ver as novidades. Estranhou não haver funcionários por perto. Deixando cair um livro, porém, notou que alguém se aproximara para ajudá-la. Sentiu um frio no estômago ao virar-se e ver o homem do metrô. Ela ia dizer algo e clic! Nova queda de energia.

- Parece que temos uma atração pelas trevas, não? - disse ele, enquanto abaixava as portas da loja com controle remoto - possuía um gerador para fazê-lo. E sem que qualquer lâmpada de emergência fosse acesa, nada mais foi ouvido."

Nota sobre o gato


Segundo o último boletim veterinário divulgado às 20h30 de ontem, o gato que caiu do quinto andar está vivo e passa bem - talvez nem tanto na opinião dele, já que ainda não recuperou os movimentos das patas e talvez necessite de uma cirurgia.

Isso me faz acreditar que realmente os gatos têm sete vidas.

Contatos imediatos de terceiro grau


Finalmente! Consegui fotografar um dos meus contatos com seres de outro planeta! Não riam mais de mim! Eu posso provar que existe vida (ou coisas estranhas, no mínimo) fora da Terra.

Em Sorocaba, no ano 2001, eu e uma amiga vimos um objeto voador não identificado. Era uma esfera alaranjada, que girava em torno de si mesma. Estava alta demais para ser um balão, e com movimentos demais para ser um balão metereológico. Ficou por mais de uma hora girando no mesmo lugar, até que cansamos de observar. Ao ouvir essa história, claro, qualquer um ri. Não digo nunca que vi uma nave, mas vi um objeto voador que eu não pude identificar.

Agora que eu vi vocês, E.T.s, me aguardem: quero marcar uma horinha pra bater papo e discutir umas questões existencias... ai de vocês!

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Sorriso


O texto a seguir escrevi em fevereiro de 1999, quando eu ainda tentava criar minha primeira conta de e-mail e achávamos que o mundo acabaria em 11 de agosto daquele ano (droga... não acabou!):


"Ela saiu de casa. E sorriu para a primeira pessoa que encontrou na rua. Uma antiga vizinha, para quem o sorriso era tão comum quanto respirar. Esta sorriu de volta. Mecanicamente.

Sorriu para o motorista do ônibus. Que retribuiu com seu "bom dia" costumeiro, sorrindo de leve.

E foi a vez do velhinho do banco ao lado. Que diante do sorriso, sentiu-se à vontade para puxar conversa. Explicou a ela como as geladeiras funcionavam e contou que sabia onde o sol nascia. Ele descobrira no Japão: o sol nascia no mar.

Sorriu para o homem sem pernas, que ficava a esmolar todos os dias na mesma calçada. Surpreendentemente, o homem sofrido sorriu também. E mais uma vez, ela lembrou-se do doce que pretendia lhe dar. Mas que sempre esquecia, tendo longe dos olhos a face triste do homem. Dessa vez, ele também sorria.

Sorriu para os colegas de trabalho. Alguns não repararam, poucos responderam. Sorriu para todos os clientes. Houve quem acreditasse que ela ironizava; houve quem se encantasse com um sorriso numa manhã de segunda-feira. Houve quem, após o sorriso, insistisse para vê-lo de novo. E por não valer a pena, ela tornou-o mais frio.

Depois, sorriu para o atendente da lanchonete. Que viu nesse sorriso mais do que ele expressava, e sentiu-se encorajado a se aproximar mais. Porém logo percebeu que o sorriso dizia pouco, e ainda não era o que ele pensava perceber.

Sorriu para uma criança na rua, que se escondeu entre as pernas da mãe, com vergonha. A mãe também sorriu.

Sorriu para a amiga que encontrou e sentiu a felicidade nesse sorriso. Sorriu para o homem que se vestia como mulher e se vendia na esquina; ele sentiu-se animado e disse "boa noite". Era noite. Os sorrisos se enfraquecem à noite.

Ficou séria. Voltava para casa e alguém do outro lado da rua caminhava na mesma direção. Ela olhou-o e não sorriu. Entrou em casa. E esse alguém, descobrindo onde ela morava, deu o maior sorriso do dia."

É tudo verdade


Eu não costumo escrever neste blog como se fosse um diário; aliás, nem era essa a minha intenção ao criá-lo. Mas as minhas últimas horas têm sido tão inusitadas que não posso deixar de postá-las aqui.

Bom, a começar minhas últimas 24 horas têm sido 48. Explico: não dormi de ontem pra hoje corrigindo textos (até dormi, mas uma hora não conta). Para mim, um novo dia só começa depois que eu durmo, não importa a que horas. Então, por volta das 21h30 da última noite ocorreu o primeiro fato desta série.

Voltava eu da academia (um capítulo à parte, a ser escrito em breve) de bicicleta. Fui fazer pouca coisa, porque ainda precisava trabalhar. Num trecho escuro da rua, não consigo desviar e cometo aquilo que, por si só já é dificílimo de acontecer: atropelei um rato com minha bicicleta. O agravante, porém, que torna a situação mais incomum ainda, é que não se tratava apenas de um rato - eram dois ratos. Como um deles já estava, digamos, meio acidentado antes de eu passar, o outro resolveu prestar-lhe auxílio. Não contava, no entanto, o pobre coitado com o infortúnio do destino: a minha desastrosa passagem por cima deles (e com os dois pneus!).

O segundo fato deu-se depois da minha virada cultural antecipada (a parte em que fico acordada até às 6h30 corrigindo os textos). Dormi sonhando com a hora de acordar, pois eu deveria estar no metrô às 8h30 para entregar os textos. Quando eu me arrumei, peguei a bicicleta para poupar tempo e chamei o elevador, descobri que este não estava funcionando. Sem problemas, há outro. Inoperante! Levei alguns segundos pensando se largava a bike e ia a pé, porém eu tinha poucos minutos e cometi a insanidade: desci oito andares pelas escadas com a bicicleta junto. Querer ser uma garota fitness tudo bem, mas isso já era exagero. O que sobrou de mim já estava no primeiro andar e o temporizador da luz começou a piscar. Sem um interruptor por perto, fiquei no escuro e cheguei ao térreo com uma pequena coleção de hematomas e ferimentos. Abro a porta para a luz e vejo a moça da faxina, apontando na direção do estacionamento e me perguntando:

- Moça, você sabe de quem é aquele gato?

O gato. Olhei para ele e surgiu o pânico: lindinho, branquinho, pequenino e estatelado no chão, sangrando um pouco. Respirei e disse à moça que, voltando do metrô, eu a ajudaria a descobrir o dono do gato. Ao retornar, comecei a saga: interfonei para alguns donos de animais e perguntei a alguns passantes. Ninguém sabia de quem era o bicho. Resolvi telefonar para os Bombeiros, mais para me informar sobre quem deveria procurar do que esperando que um carro do resgate, absurdamente, viesse socorrer o moribundo. Os bombeiros me indicaram aquele fantástico disque-tudo da prefeitura para falar com o pessoal do Centro de Zoonoses. Depois de tentar, esperar, a ligação cair e começar tudo de novo umas três vezes, larguei o telefone e fui para perto do gato. Ao menos ele não morreria sozinho, pensei, e fiz-lhe um afago. Então ele começou a miar, coitado, e não agüentei: fiquei ali chorando junto com ele. Algumas pessoas apareceram por causa dos miados, e com a ajuda de uma criança, finalmente descobrimos de quem era o gato: de um morador do quinto andar! Interfonei no apartamento, avisei os moradores; desceram crianças, avó, bisavó e disseram que o dono, dono mesmo, vinha do trabalho para salvar o bicho. Ainda chorando, vi o rapaz levá-lo ao veterinário; mesmo imaginando que seria só para o sacrifício, fiquei um pouco aliviada por acabar com aquele sofrimento.

Voltei para casa, com aquela frustração de quem quase fez faculdade de medicina veterinária, mas desistiu por não gostar de sangue, e rolou aquele momento superpiegas: agarrei o diabo-da-Tasmânia Janis e agradeci por eu ser uma pessoa que não a deixa passar da lavanderia para a sala pelo parapeito externo da janela.

E em seguida o momento bilhete único, passaporte para o inferno!

Indo para o trabalho (o outro!), tomei o bom e velho Step-bus: você, por apenas R$ 2,30, locomove-se pela cidade e pratica uma aula de step! A moderna tecnologia pensada para os portadores de necessidades especias produziu um coletivo em que você: a) sobe os degraus e entra; b) desce os degraus e paga a passagem; c) sobe os degraus e procura um banco e d) desce os degraus a sai. Ou qualquer coisa do gênero. O próximo fato se deu quando eu estava na parte mais alta, levantando-me do banco para descer.


Nós já estávamos de pé, eu, minha bolsa e minha mochila e de repente sinto um abraço em minhas pernas, tentáculos quase me derrubando escada abaixo. Quando me reequilibro e olho, um sujeito, inicialmente sentado, despencou após uma curva, agarrou-se em minhas pernas e levou à boca uma camiseta(!) - gesto este que fez com que eu me desvencilhasse rapidamente, pois imaginei que ele fosse vomitar. Ainda sem entender bem o acontecido, ouço o rapaz pedir mil desculpas; estava dormindo, caiu com a curva, desculpa, desculpa. Eu lhe disse que quase me fez cair, que eu poderia ter me machucado nos degraus, e, fora do ponto, ele pediu ao motorista para descer. O motorista abriu a porta; a criatura passa por mim e fala:

- Desculpa, mas valeu, hein, princesa!

Valeu o quê? O meu mico? Todos os passageiros me olhando? Cheguei a cogitar que ele fez isso de propósito. Afinal, num dia de 48 horas em que ratos se jogam na frente de bicicletas e gatos pulam do quinto andar por falta de elevador, nada de mais um sujeito se jogar aos meus pés, mesmo que isso tenha se parecido mais com uma tentativa de assalto do que com um arrebatamento por minha beleza...

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Bancos

Antes de disputar essa vaga que hoje ocupo, eu trabalhava em banco. Trabalhei no Santander (no tempo em que os clientes perguntavam se a pronúncia era Santandér ou Santânder) e depois no Bradesco. No primeiro eu era hostess, ou a mocinha chata que tenta convencer todo mundo a fazer depósito na máquina. No segundo, eu vendia seguros.

Eram curiosos os tipos que eu via. Mais ainda como hostess, pois eu tinha contato com todo mundo que passava pela agência. Por mais que eu me recusasse, sempre havia alguém me pedindo para digitar sua senha no caixa eletrônico. Desses, era uma senhora espanhola que não enxergava direito. Ficava brava se eu dissesse que não podia e repetia: "Se eu autorizo, ninguém tem nada com isso." Outro era um senhor que tinha fobia de botão. Ele me explicou o problema, que consistia em medo generalizado de apertar teclas e afins. Sei lá se ele explodiu algum lugar apertando o que não deveria.

Também era fácil fazer amizade por ali, virar confidente. Incrível o quanto as pessoas se abrem com estranhos. Um senhor solitário, dono de uma banca de jornais, às vezes ia à agência só para conversar comigo. Fez até um poema para mim. Parece clichê, mas consolei gente chorando, ouvi reclamações (milhares!), ajudei gente na porta giratória... Essa porta, inclusive, rendeu um ridículo strip -tease masculino por parte de um irritadinho. Tirou tudo, até a cueca. E como era dia de pagamento do INSS, eu tive que acudir as velhinhas horrorizadas.

No Bradesco, eu tinha um chefe muito legal. Tão legal que, muitas vezes, eu tinha que interrompê-lo em suas histórias para trabalharmos. Ele adorava contar sobre a minissérie que fez no SBT nos anos 80, e era muito engraçado. Sossegado, me deixou sozinha na agência no meu segundo dia, dizendo que tudo daria certo, era só atender o pessoal. Nesse dia, chegou uma cliente no momento em que eu me levantei para almoçar, perguntando mil coisas que eu não sabia, atrasando em uma hora meu almoço. Após dispensá-la, fui para a lanchonete ao lado da agência e, minutos depois, comecei a ver uma, duas, três, cinco viaturas de polícia chegando. Haviam assaltado o banco assim que eu saí.

O Bradesco também tinha uma figura singular. Uma senhora toda maquiada e sempre de preto estava lá todos os dias. Sentava-se no sofá e passava parte do dia ali. Não pagava contas no caixa, não falava com ninguém. Às vezes, dormia. Quando perguntei, me disseram que o marido dela trabalhou naquela agência. E morreu do coração. Depois disso, ela adotou esse ritual. Chegava a ser poético. Mas eu me questionava: o que ela faria se o marido fosse carcereiro?